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Areias e Ventos: Do pó vieste e ao pó retornarás


 

O apagar de uma individualidade...Figuram numa grande distância passos que ficaram perdidos no passar do tempo. Marcas de quem tinha objetivo de chegar ou simplesmente tinha desejo de andar.

Nisto existindo o despertar de esclarecimentos, mas também a tortura de lembranças vivas.  É um cérebro que se curva à grande atividade de ideias e pensamentos, ficando angustiado.

É a fragilidade do corpo que parece não suportar a inquietação do tenso espírito.

São quadros que se formam, um após outro,  com lembranças dos porões da memória.  Mesclam-se na face a tentativa de serenidade mental  a debater-se com confusas emoções.

Pressente um envelhecer prematuro, algo estranho ante a juventude ainda não vivida. Velhas mágoas parecem revitalizar-se,  convertendo uma certa tristeza em amargura.  Não consegue igualar-se em alegria  aos tantos outros que parecem felizes com a vida. Imagina-se como uma espécie de um ser inerte em meio a outros, cheios de movimento.

Os dentes da boca funcionam como barreiras às palavras duras  que invadem a garganta.  Existe um incômodo estado interior, uma alta tensão subcutânea que esgota aos nervos.

Desejaria além da limitada visão dos olhos,  almejaria com olhar desvendar o futuro. Um febril delírio, estranhos sonhos que se misturam com pesadelos,  dores da alma eterna.

Avançam os espaços da imaginação com suas  ilusões sobre a limitada realidade cotidiana.  Talvez veja homens trajados de terno e gravata  a dançar com velhas figuras mitológicas.

É nesse conflituoso jogo cerebral  que se busca uma solução que parece perder-se no vazio.  O raciocínio move-se aceleradamente, querendo fugir do corpo que conclui ser muito lento.

Falta harmonia entre as partes  que constituem o ser,  está prestes a uma hecatombe individual.  Imagens vorazes fluem como que fotografias instantâneas  que enchem sem cessar o cérebro.

Surge um desequilíbrio neurológico e os pulmões arfam na busca de ar, como se sufocados.

Um momento crítico, agudas dores pontilham toda a extensão do corpo  que se sente exausto. A sensação de tudo estar por frágil fio e nesse sentir haver algo de profundamente familiar. Os ouvidos estão perturbados, creem ouvir sons desagradáveis no choque das nuvens.

Enche-se de impulsiva irritabilidade,  pressente forte agressividade, uma árdua competição.  Assim é que vê que o azul do céu e o branco  das nuvens querem devorar-se mutuamente.  É com amargura que reconhece  que essa imagem reflete a velha e a atual humanidade.

Gostaria de fugir, de rejeitar viver aquele momento, desejaria que fosse possível desaparecer.

As pernas, entretanto, recusam-se a se movimentar.  Domina-lhe um pesado abatimento.

Deita-se sobre o solo, abandona-se na horizontal.

Fica ali, escravo de densa imobilidade. E de instante para outro  todas as cores do quadro  vão ganhando um tom de cor areia. E a cor domina, transforma todas  as figuras da imagem

 em partículas de fina areia.  E esta vai dizimando-se até  transmutar-se em poeira,  até chegar a estado de ínfimo pó.

A criação de um deserto.  Um riacho tenta surgir, mas logo seca,  a aridez é intrépida.  Nem o azul do céu, nem o branco das nuvens. A areia a ambos devorou, sem piedade.

É quando surge, de surpresa,  uma turbulência que gera revoltoso e forte vendaval. É movimento de massa impalpável sobre a fraca solidez do relevo das figuras de pó.

É com fúria guerreira que no seu bafejar vai aniquilando a tudo que está à sua frente.  É o vento que carrega toda areia que agora é apenas insignificante pó.  É o vento que a tudo leva!