Qui03042021

Last update04:26:39 PM

 

Back Você está aqui: Home :: Mais +++ Artigos PASSEIOS

Artigos

PASSEIOS

PASSEIOS

Cada vez mais gosto de acordar cedo. Sei que o sono, por vezes, é irresistível e assim trabalha nosso cérebro para manter-nos na cama. Mas, imaginar em fazer algo gostoso rivaliza com o sono. Já disse que estou trabalhando em uma peça, pois bem, pensar em levantar e trabalhar o texto tem me gratificado e dá coragem para madrugar. O trabalho vai muito bem e, em breve, termino em sua forma bruta, depois vem o lapidar, fase que carrega outro sabor. Sentir cada diálogo, a coerência, cada gesto de um personagem é muito divertido. A grande incógnita é mostrar aos entendidos da arte e colher observações. Sempre dá um friozinho na barriga.

Mas, vamos ao acordar de madrugadinha. Existe a máxima de que Deus ajuda quem cedo madruga. Não sei se pela máxima, mas não consigo ficar de mau humor logo pela manhã. A vida é tão boa e temos tanto a fazer que ficar na cama curtindo sonhos dá-me a impressão de desperdício. Querem coisa melhor do que madrugar toda a família e sair para um passeio? Sou de prole numerosa e imaginem o corre-corre na madrugada de um passeio. Um vai ao banheiro, outro, noutro, um para a cozinha preparar o café, outro olhando as malas, um corre para a padaria e outro vai abastecer o carro. Depois, a empolgação do início da viagem, o olhar para as (poucas) pessoas pelas ruas, a aurora, as conversas desencontradas. De repente, os sons vão diminuindo, o dia nasce, muitos voltam ao sono que deixaram na cama e o passeio segue.

Vem a lembrança de quando íamos pescar na represa de Furnas, na cidade de Areado em Minas Gerais. O Tarcísio, segundo irmão na descendência da carne, possuía um fusca azul e morava na cidade de Pinhal, nós em Águas da Prata. Antes de o sol raiar, estava com tudo pronto na porta de casa. Saímos sem ver a luz natural e assim chegávamos na barranca do rio. Passávamos o dia pescando, comíamos um lanche no almoço e, à tardinha, voltávamos para casa com centenas de mandis para limpar. Nessas pescarias aconteceram fatos inusitados, como quando meu pai fisgou um menino, que estava atrás dele, antes do arremesso. Ou pessoas que pisavam sobre os ferrões dos peixes jogados pelo chão, até mesmo aqueles que traziam três, quatro mandis na ponta da mesma linhada sem configurar uma história de pescador.

Mas, não era isso o que realmente importava e o que continua vivo em minha memória, mesmo após quarenta anos. O que deixa marca é a união da família e a saudade que nos pega de surpresa.