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Galope – O texto retrata a força da juventude e sua sensação de eternidade.

Galope – O texto retrata a força da juventude e sua sensação de eternidade.

 

 Um retrato.

 Um quadro a ganhar movimento.

 Fulgura no horizonte um sol vermelho

 tonalizando de carmim a todo ambiente,

 gerando sombras em meio à imagem crepuscular.

 Muitas sem movimento

 e uma única a mover-se.

 Silhueta negra,

 homem montado em cavalo.

 Dourados tons dos raios solares ocultos nas nuvens.

 O céu parece arder em fogo.

 O vermelho abrasa o cinza.

 O bater dos cascos. Forte galope.

 A agitação cardíaca.

 Desabalada carreira,

 não sabe se está em fuga

 ou se busca encontro.

 Chicotes de luzes,

 as tensões a esporearem o corpo,

 o domínio dos arreios.

 Os freios estão quase que soltos,

 a fúria dos dentes brancos.

 A potência da força,

 o impulsionar nervoso dos músculos.

 Debatem-se homem e animal.

 Companheiros ou adversários.

 Obstáculos à frente.

 Retira-se da cintura reluzente espada.

 O brilho da lâmina,

 o movimento agressivo de mãos e braços,

 podando os entraves do caminho,

 abrindo trilha para poder passar.

 O coração abastecendo as vasos,

 o sangue novo despojando o velho.

 Rompem o vento

 que quer impedir o trepidante galope.

 No confronto não existe ódio,

 mas apenas força obstinada.

 Uma enérgica direção

 onde busca-se, em desespero, a eternidade.

 Daí esta aferrada corrida,

 numa união de corpo e alma,

 numa junção tão íntima de dois seres

 que haverão de parecer um.

 De tal forma que acabarão por muito andar

 e por chegar ao fim da terra,

 para encontrarem, então, a água.

 E não querendo o animal mergulhar,

 desmontará o homem,

 impulsivo, indo atirar-se no misterioso líquido,

 deixando o corpo afundar

 para sobreviver com o ar guardado nos pulmões.

 Momento de luta,

 o enfrentamento dos limites físicos,

 o grande desafio,

 para depois dominar-se

 com as rédeas da ponderação,

 decidindo emergir.

 Tendo prazer ao perceber

 que conseguiu sobreviver,

 almejando tocar a terra.

 Nadando com potentes braçadas para o leito,

 sentindo a exaustão do coração.

 Chegando quase sem vida à terra,

 arrastando-se pelo solo que rejeitou.

 Tendo, então, o seu encontro fatídico com a morte,

 porém, olhando sem temor para sua face,

 soltando estridente gargalhada,

 deixando-a sem jeito,

 meio que envergonhada.

 Preferindo ir embora e deixá-lo em paz.

 E este ficou

 ao lado do seu belo equino,

 deixando o sol revigorar-lhe a vida.

 Num cansaço cheio de realização,

 numa exaustão cheia de liberdade.

Gilberto Brandão Marcon - 1984