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ALERTA: RICARDÃO À FRENTE


Pois então, veja como são as coisas. Eu era um daqueles sujeitos com colete refletivo e bandeira de advertência em mãos, à beira da rodovia, sinalizando desvio, obra ou acidente à frente.

Para quem gosta de trabalho metódico e 100% previsível, ganhar a vida fazendo o que eu fazia era estar no paraíso. Ou, pelo menos, na estrada que leva a ele.

Mas nem tudo é perfeito. O movimento ininterrupto do braço direito chacoalhando a bandeirinha para cima e para baixo me presenteou com uma LER, depois de um ano e meio de serviço. Foram quatro meses de licença médica, e voltei à labuta com a recomendação do fisioterapeuta de não movimentar o braço, apenas deixá-lo esticado, pois o vento batendo na bandeirinha já bastava para a sinalização.

Um dia tentei variar o braço, empunhando a bandeira com o esquerdo. Mas aí me dei conta de que ficava de costas para os motoristas, o que me valeu uma senhora raspança do meu supervisor imediato. Disse na ocasião que a minha falta era dupla – de educação, por não ficar de frente para o usuário, e de amor à vida, já que não poderia enxergar e desviar a tempo de um carro que viesse em minha direção.

Quinze dias depois, descobri o quanto aquela minha iniciativa de revezamento braçal tinha sido desastrosa. Era umasextaà tarde, quando fui chamado ao RH.

Engrossando as estatísticas de 14 milhões de desempregados, me vi sem eira nem beira e muito menos acostamento. Desorientado, batendo perna a esmo atrás de colocação ou trabalho temporário, dei com uma placa de “Contratamos” na fachada de um velho galpão, onde antigamente funcionava uma fábrica de espoletas.

Ironia do destino: o barracão tinha virado uma indústria de “ricardões”, aqueles bonecos que substituem os sujeitos que fazem o que eu fazia. Alguns empunhando binóculos, outros com bloquinhos de multa e boa parte deles com a maldita bandeirinha cor de abóbora, que ao ser despedido jurei nunca mais querer ver na frente.

Não sei dizer se minha experiência anterior à beira da estrada colaborou para que conseguisse a vaga, mas o fato é que no dia seguinte estava a postos na linha de montagem de ricardões rodoviários, réplicas mal-acabadas de mim mesmo.

Até queontemme apareceu para produzir um ricardão-supervisor, com roupa idêntica e fisionomia parecida com o carrasco que me colocou na rua.

Não pude disfarçar um esgarzinho de satisfação no canto da boca. Tentei despedi-lo da minha cara, mas ele se recusa a ir embora.

Imagem: http://reflectivevestsindia.blogspot.com
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