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FERNANDA AOS SÁBADOS

 

FERNANDA AOS SÁBADOS

Sete e quinze

Embora as evidências indicassem o contrário, ela não havia acordado de fato.
Mesmo que estivesse de pé em frente à pia do banheiro, apertando com força o resto de pasta no tubo. Até se dar conta de quem era, de onde estava e do que se passava nas imediações ia um certo tempo – abreviado consideravelmente quando tomava uma cápsula ou duas de Pfaffia Paniculata.

Sete e vinte e três

Olha as olheiras e gela. Por um momento pensa que os espelhos deveriam ser banidos, a menos em casos extremos ou para uso exclusivamente clínico (quando se coloca um desses pequenos próximo à boca do doente terminal para ver se ainda respira).

Nove e dez

Um blend de mel e cremes na cara, pepinos nos olhos, esmalte nas unhas das mãos e dos pés. Um robe atoalhado branco e nada por baixo. Assim fica enquanto escuta Rachmaninov. Ruído de correspondência sendo enfiada debaixo da porta. Sushi delivery. Vai pedir meia porção pra experimentar.

Meio dia e cinquenta e dois

O celular recarregando, a roupa suja da semana centrifugando. Revisa a tese de mestrado e repõe a ração no pratinho do Chonsky.

Uma e quarenta

Sintomas silenciosos, mas não propriamente imperceptíveis, já há alguns dias deixavam clara a situação: havia urgência no atraso a tirar, e não se cogitava a menor hipótese de adiamento. Os hormônios entregam o cio em olhares, cheiros exalados, indícios ancestrais do acasalamento iminente. Consulta a agenda. Telefona. Ele chega vinte minutos depois com o perfume amadeirado de costume.

Quinze e trinta

Ocorre que o macho que afoitamente lhe invadia a carne não era homem o bastante para tocar-lhe a alma. Nem ela parecia querer que fosse de outra forma. Um amigo. Amizade e sexo, nenhuma chance de discutir a relação. Se refaz do gasto calórico com fartas colheradas de abacate batido com leite. Não iria engordar mesmo, ninguém na família tinha tendência. Abaixo os amores gravados nos troncos das árvores. Viva a inconsequência dos desencanados.

Dezenove e cinco

Sozinha de novo, alterna do sofá para a poltrona. A predileta desde pequena, veio da casa dos pais. Os braços pensos, o olhar vago encarando um ponto imaginário na parede branca. Branca como ela, arredia das praias e piscinas. Branca como a insípida persiana do escritório, de
segundaasexta, das 8 às 18, a lhe negar a paisagem da rua. Branca como o nada que se passa em sua cabeça no momento, o nada branco e seu peso insuportável.


Vinte e duas e vinte

Fernanda. Há algo de gerúndio neste nome. De coisa indefinidamente em andamento, um ser em construção, inconcluso – ela pensa, enquanto devora o último sushi que sobrou do almoço. É, acho que é isso. O nome casa perfeitamente com a pessoa.

Vinte e três e cinquenta e seis

Fecha o livro sobre o colo. Os longos cabelos lisos caem sobre o volume, formando uma estranha composição abstrata. Descansa da fadiga de si mesma e deixa-se vencer por um cochilo. Tentam entendê-la, são muitos querendo sua chave, sua senha, seu código. Mas Fernanda é um mistério ainda mais indevassável quando dorme.

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