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SEM VOLTA

I
– Antes da gente começar a regredir, relaxa totalmente o corpo, da cabeça aos pés, prestando especial atenção à musculatura dos ombros. Procura deixar tudo mole, como macarrão cozido, lembre-se disso. Se precisar ajeitar a almofada para acomodar a cervical, sem problema. Vê se está confortável.
– Ok.
– E tenta manter a respiração diafragmática. Caso possível, inspiração e expiração movimentando a barriga, não o peito. Tudo bem?
– Tá.
– Vai voltando ano a ano, aos poucos, sem forçar.

II
– Onde você está agora?
– Na casa dos meus bisavós… é esquisito ver tudo colorido e tão vivo desse jeito. Só vi aquela casa em velhas fotos pb.
– Se você parou aí, nesse lugar, algum motivo deve
ter.
– Mas não pode ser… essa casa eu não conheci, como posso regredir ao que não presenciei? Eu não era nascido quando o casarão veio abaixo, o pouco que conheço de lá é por relatos de umas tias velhas.
– Não se preocupa com isso, não. Antes do seu horário eu regredi um paciente que foi parar em Constantinopla, anteriormente à tomada pelos turcos. Ou seja, ali por volta do ano de 1.300, 1.400 ou coisa assim… Começou a enrolar a língua, até entender o que estava acontecendo foi um custo.
– Não faz sentido.
– Já ouviu falar em terapia de vidas passadas?

III
– O cheiro desse bife grelhado na manteiga e do mingau de fubá. Eu nunca experimentei nem uma coisa nem outra, no entanto bateu agora uma certeza de que carrego esses aromas comigo desde sempre. Uma sensação estranha e familiar ao mesmo tempo. E tem um carrilhão que toca a cada quinze minutos.
– Fale mais, diga o que acontece por lá.
– Parece ser um dia especial, uma expectativa de festa ou algo parecido. Tudo tem uma aura encantada e absurda, os móveis, a prataria, os mortos tão cheios de vida. Mas o fato de estar fora de contexto é um incômodo. A impressão que tenho é que serei descoberto a qualquer momento. Serei desmascarado e puxado de volta aí para o consultório.
– Não racionalize.
– Minha bisavó está me segurando pelo braço. Trancou a porta da frente. Diz que não vai me deixar ir embora, de jeito nenhum. Que faz muito tempo que não apareço. Estou tentando escapar do abraço dela, não consigo… Ouço meu bisavô descendo a escada, também para me convencer a ficar, ao menos até a hora do almoço. Vem segurando um cálice de vinho do Porto. Apareceu um cachorrinho, de pelo curto e malhado, ele se enrosca nos meus pés.
– O que mais?
– Sons de cascos de cavalos. Deve
terum ponto de charrete aqui perto. Minha bisavó me aperta mais forte. Sinto seu hálito. A textura da roupa. Uma luz coada pelo vitral da sala…
– Sim? O que é que tem?
– Marmorizou tudo em volta de mim. Mármore branco, daqueles de escultura de cemitério… A porta da frente trancada. O abraço agora gelado da bisa, o gelo do mármore me prendendo, não consigo mais escapar.

IV
– Jaqueline, me ajuda aqui…
– Está sem pulso… acho que não volta mais.
– Faz o seguinte, pega um espelhinho na sua bolsa. Coloca perto da boca dele, se embaçar é porque ainda respira. Rápido!
– Nada, doutor.
– É. Vê lá na agenda os contatos dos parentes próximos.

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