Sab07202019

Last update09:04:23 AM

 


Back Você está aqui: Home :: Mais +++ Artigos DIÁRIO DO NÃO VIVIDO

Artigos

DIÁRIO DO NÃO VIVIDO

Se fosse só registrar em um diário o que aconteceu, para que conseguisse me recordar depois, seria fácil. O problema é que, ao ver o registro dos fatos, aquilo não passa de um amontoado de palavras sem sentido ou correspondência com a realidade. Com a minha realidade, pelo menos. A intenção de anotar para lembrar se perde.

Seria preciso conceber algo que me lembrasse de lembrar que o que escrevi no dia anterior realmente aconteceu, por menos que me recorde detervivido o relatado. Ocorre que, conforme vou relatando, ao mesmo tempo já vou esquecendo o que escrevi na linha imediatamente anterior. A perda da memória faz apagar não só as recordações mais antigas, mas some igualmente com o minuto que acabou de passar.

A inclusão da data, com o dia do mês e da semana, também de nada adianta. Isso porque ao ler, por exemplo, a anotação “Quarta-feira,23 de setembrode 1987”, me pergunto o que vem a ser “quarta-feira”, “23”, “setembro” e “1987”. Ainda que, no meio desse vácuo, às vezes ocorram alguns instantes de lucidez, onde recordo que “23” é um número que sucede o 22 e precede o 24, que “setembro” é um mês do calendário e que “1987” é o ano seguinte ao fiasco mundial da passagem do Cometa Halley pelos arredores do planeta. Esse momento, em que tudo se esclarece e ganha significado, dura coisa de 15 segundos ou menos, até que a mente volte a cair no branco anterior, no vácuo permanecendo pelas duas ou três horas seguintes.

Esses três parágrafos foram redigidos em um lapso de lucidez, e sei de antemão que daqui a pouco não significarão mais nada. Ajude-me, se puder.
© Direitos Reservados