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ESPERANDO NOEL

Esperando o Papai Noel, passei por uma experiência diferente nesta semana. Fui visitar o presídio de Casa Branca, no interior de São Paulo, construído para abrigar oitocentos presos e que, atualmente, guarda mais de dois mil apenados por não cumprirem as normas de convívio em sociedade que julgamos adequadas. Fiquei imaginando: “Como será o dia a dia das pessoas restritas àqueles cubículos?” O que fui fazer? Acontece que existe uma lei que incentiva os presos a trabalharem, conseguindo, assim, redução de suas penas e ocupação para o tédio do cárcere. A empresa em que estou fazendo consultoria está tentando uma parceria para que parte da linha de produção seja aí executada. Dentro do complexo penitenciário já existe uma empresa de calça jeans (lembrei-me do Brás), outra de costura de bolas, mais uma de desmontagem de turbinas, uma de “big bag” e uma oficina que arruma carteiras escolares para o Estado.

Acredito que a grande maioria do povo nunca entrou em tal ambiente a não ser pelos filmes e noticiários da tevê. Garanto que o clima é pesado e ficamos com um misto de insegurança e reflexão. Confesso que para mim a experiência não é nova. Quando criança em Águas da Prata, minha avó Maria servia a refeição para os presos da delegacia local. Três refeições ao dia. Café da manhã, almoço e jantar. De manhãzinha, ela ajeitava o café em um grande bule, tapava o bico com papelão, o leite em uma chaleira, tapava o bico com outro papelão, e o pão com manteiga em uma sacola de pano. No almoço e jantar as refeições eram acomodadas em marmitas de alumínio. Não creio que hoje existam as reclamações da época em que fui estafeta de minha avó. Se chegasse e o café ou o leite estivesse frio, pronto, gritaria geral. Alguns presos escolhiam cardápio. Se era o dia para servir macarrão e algum detento não gostasse da iguaria, devia ser substituída por outra. Imaginem se naquele mundão de Casa Branca alguém tem voz para reclamar de alguma coisa, principalmente da comida. A rigidez do sistema é impressionante. Não há meio termo.

Agora, chega a semana do Natal e aquelas pessoas que julgamos inadequadas ao nosso convívio permanecerão apartadas. Reuniremos as famílias, brindaremos a vinda do Redentor, cometeremos alguns excessos e olharemos para a frente, para 2020 ou, quem sabe, mais adiante... sem a retangular imagem entrecortadas pelas barras de ferro.