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O Banquete das Solidões

 

Na ceia da vida,

Cada um com o seu copo de melancolia,

Cada um com o seu sorriso de gala,

Pois que sorrir é enganar as feições do rosto.

Na máscara de cada um, no olhar furtivo,

No oculto que de tão vaidoso quer aparecer.

Um segredo desvendado,

Para depois se cobrir com cinzas.

Num brindar de silêncio,

Pois o movimento a tudo tomou.

Tudo ocupa, tudo se faz cheio,

Empanturrado de sapos engolidos.

No banquete do cotidiano,

Nos corpos blindados pela razão,

Dos corações perdidos do peito,

Pois que todo sutileza, toda requinte,

Tem lá se ar de mistério inútil,

De perversa futilidade,

Das presas e garras cheias de distinções,

Tolo é o engano da sensibilidade,

Que se supõe capaz de vencer a força.

Calado.

Mudo.

Com a boca fechada.

Um cadeado com a chave perdida.

Num secreto segredo sem fim.

Na zombaria de ser bom ou mal.

No discreto prazer da soberba do sarcasmo.

No requintado tempero da ironia.

Os risos não tiveram graça.

Os sorrisos não tiveram dentes.

E boca?

A boca não estava lá.

Nada havia no rosto,

Ninguém existia.

Nada havia.

Senão, apenas, o ínfimo,

Na sua humilhação de ser tão pequeno.