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BALA DE LEITE


Olha que o friozinho bateu mais forte no meio desta semana! Ao sair de São Paulo, madrugadinha, os termômetros marcavam 13°. Já no alto da imponente Serra do Mar caiu para 9°. Fiquei imaginando nos recônditos da minha querida Mantiqueira. Antigamente, a notícia chegaria por alguma parente ou amigo, hoje, com todo o mundo na palma da mão, pude ver que em Águas da Prata estava 8° e em Poços de Caldas 6°. Logo, em São Roque da Fartura, que está acima das duas cidades, deve ter batido geada na madrugada. Tudo colabora: clima seco, noite sem vento, céu limpo e estrelado. Como se dizia: parecendo de vidro.

Algumas coisas não se explicam. Acontece que, em dias assim, minha mãe prenunciava: “A noite estará propícia para bala de leite!” Necessidade de dar o ponto. Lembro-me do panelão com leite e açúcar que íamos mexendo, mexendo, até que minha mãe, com uma colher, puxava o caldo acima das borbulhas ferventes observando se formava um fino fio. “Está no ponto!” Despejávamos sobre a pedra da pia a massa pelando e começávamos a bater e esticar, bater e esticar, bater e esticar. Quando um não suportava mais o esforço, passava para outro que continuava no mesmo ritmo até formar o cordão. Aí, era só cortar com a tesoura no tamanho desejado. Apressado, gostava quando grudava em todos os dentes e no céu da boca, antes de açucarar, deixando aquele gostinho doce se dissolver lentamente. Disse que algumas coisas não se explicam, não pelo fato de a Maria Doceira fazer balas o ano inteiro, com chuva, sol, frio, calor ou vento, mas pela bala de leite ter se impregnado em meu cérebro como nos meus dentes. Poderia ser outra receita: bolinho de chuva, feijoada, pastéis, massas de todos os tipos. Mas não, esse sentimento gostoso, com o frio, vem da bala de leite.

Podem até dizer que é pela época, que os neurônios buscam ligações e, sem mais nem menos, vai e arranca alguma coisa, boa ou ruim, que está grudada no inconsciente. De repente, parece que o fato de anos e anos atrás aconteceu ontem à noite. Dá até para sentir o doce sabor derretendo pelos cantos da boca, minha mãe andando pela casa, meus irmãos, o pai e toda a família em uma doce sintonia.