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A ARTE DE ARGUMENTAR


A Avenida Jabaquara, extensa, tranquila e larga, como tantas outras, próxima ao aeroporto de Congonhas, guarda do seu lado direito, sentido bairro, o complexo religioso de São Judas Tadeu. Todos os dias 28 do ano, uma procissão de fiéis para lá se dirige pedindo e agradecendo as graças recebidas. No próximo mês, dia 28 de outubro, data do santo, certamente as venerações serão maiores. Mesmo sabendo da pandemia, de forma responsável, muitos por lá passarão. Mas, não é da igreja e nem dos fiéis que vim falar. Acontece que algo ali me chamou a atenção. Não na igreja, mas, na mesma calçada, duas quadras acima, frente a um prédio com a placa: ALUGA-SE. Em sua barraca azul, fica um morador de rua, como tantos outros naquela e em outras regiões. Pede uma refeição aqui, um lanche ali, uma comidinha acolá, algo para o cachorro. Sim, todo o morador de rua tem seu pet. Por sinal, dia desses, deu um safanão no pobre animal para ensiná-lo a não ficar no caminho dos transeuntes.

Por incrível que pareça, nem ele, nem a barraca traz o difícil odor das pessoas abandonadas. Nas primeiras vezes que por ali passei, caminho obrigatório para o restaurante onde almoço, comida simples e preço adequado, com o conhecimento de quem já trabalhou no centro da cidade, puxei o fôlego alguns metros antes, para soltar passos depois. Dia após dia, diminui o interregno do bloqueio da respiração e já passo pelo morador magro, cabelos cacheados e barba por fazer, respirando normalmente. Pode ser que não perceba o cheiro pelo vento que não cessa naquele alto da cidade. Pouco provável, mas posso afirmar que nunca o vi em pé. Sempre deitado dentro da barraca, pernas para fora e com o vigilante animal à porta, ou sentado na peregrinação em busca do óbolo do condescendente.

Esta semana, algo me chamou a atenção. Compenetrado, sentado nos calcanhares, como se fazia antigamente na roça, na porta da barraca, com a mão direita sobre o joelho e a esquerda firmemente segurando um livro, lia absorto. Forcei a vista para ver o título: A ARTE DE ARGUMENTAR. Segui para o meu destino imaginando no que lhe seria útil aquela leitura. Na volta, no mesmo ponto, e ele continuava compenetrado na leitura. Certamente, em poucos dias, melhorará muito sua performance ao abordar os passantes! Vivendo, lendo e aprendendo. Bye!