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Vida Própria


– Vai, escreve aí. Não discute comigo, faz o que eu estou mandando. Chegou a minha vez de me inventar. Ou reinventar, no caso. É fácil ficar sentado o dia todo aí nessa cadeira, decidindo como as pessoas são ou deixam de ser. Fazendo barba, cabelo e bigode na gente. Falando nisso, volta lá na página 239, capítulo 12, quase no final. Tira essa porcaria desse cavanhaque ridículo que você me arrumou, um pouco antes do roubo da joalheria do balneário. Fique sabendo que, depois disso, a vizinha do 43 – outra invenção sua, na página 18, lembra? Então, ela nem olha mais pra mim.

– Calma, rapaz. Não esquece que, do mesmo jeito que te inventei, eu posso dar um Del aqui e você vira folha em branco de novo.Desse jeito você me desestrutura o livro.

– Se preocupa não, o mundo não vai perder grande coisa.

– Mas se eu jogo fora o que está aqui, você vai junto pra lixeira.

– Mas é mirim mesmo, viu. Sinto informá-lo que agora é tarde. Como vocês escritores costumam dizer, ganhei vida própria. Você não tem mais controle sobre o personagem. E, por uma desatenção exclusivamente sua, fui imaginado com bíceps e tríceps bem mais salientes que os seus. Portanto, é altamente recomendável que me obedeça, tá certo?

– Caramba, eu estava no meio de um turning point.

– Quê?

– Reviravolta. Para o leitor não dormir, sabe?

– Ah.

– Espera só um pouco, não quero perder o fio da meada…

– Olha, tem um negócio que se chama responsabilidade, seu moço. As coisas aí na rua estão do jeito que estão por causa de escrotinhos como você, que ficam aí, botando gente no mundo quando e da forma que acham melhor. Agora tô aqui e não tem volta. Não adianta me tirar da história na próxima edição. Eu sou protagonista.

– Alto lá, eu posso te matar no próximo capítulo!

– Experimenta.

– Tira essa mão cheia de dedos da minha garganta, por gentileza. Uma batucadinha aqui no teclado e eu te deixo maneta, aí quero ver!

– Se tiver força pra teclar depois de estrangulado…