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O incômodo de ser


Ser é uma experiência estranha,
Em meio ao que se quer ser,
E aquilo que de fato a vida permite ser,
É que vezes parece que seria alívio ser esquecido,
E mais do que isto, esquecer-se,
Num ato de contraposição que não visa a rebelião,
Mas apenas um honesto pedido de misericórdia.
Que não se confunda isto com fraqueza,
Pois que conheço como exercer suposta força,
Suas supostas virtudes e seus tolos pecados.
Não se trata disto, os meios não justificam os fins,
Mas é exaustivo construir um caminho reto e justo.
Mas pela justiça todo cansaço parece valer a pena,
Ainda que isto pareça exaurir tanto,
E que ao fundo parece haver uma desesperança,
Que ante a demora,
Se tem a sensação de que a nada se chega.
Entretanto,
Mais utópica do que a liberdade que individualidade anseia,
Parece ser a justiça que demanda o conviver entre os pares.
Então, um certo desencanto da razão,
Uma certa amargura guardada nos sentimentos,
Um punhal de impotência que fere à vontade.
Humildemente acabo por sondar triste conclusão:
A de que tudo por vezes parece ser uma grande tolice;
Mas este pensar me faz sentir desrespeitoso com o Todo.
Mas então, me questiono,
Como conseguir ser honesto sem sentir tal desconforto?
Afinal isto acaba por tanto incomodar.
Não se trata de busca do céu ou evitar o inferno,
Mas de uma simples necessidade de paz.
Algo que de tão óbvio faz-me sentir infantil.
E então me vem algo estranho,
Eu que não gostei de ser criança,
Me percebo de alguma forma infante.
Apegado em utopias e ideais inúteis.
E que não se confunda com inutilidade,
Pois se existe alguma graça e poesia de ser
Estão neste distante propósito
Nesta esperança de um por vir que desconheço,
Nesta promessa oculta
Que não sei se ilude ou traz iluminação,
Mas que reconheço, anseio tanto
Quanto mais parece ser inatingível.
Eis que eu vivo os dias, mas eles não me têm,
E nisto existe justiça,
Pois também eu não os tenho.
Me vejo a distância, me avalio,
Tento entender e não entendo.
Não entendo inclusive por que este querer entender.
Por que não se bastar com o ritual da vida?
Colher alguns frutos pelo caminho
Saboreá-los e nisto encontrar alguma satisfação.
Tudo parece não bastar, tudo é incômodo,
Como se em dado momento surgiu o caos
E este quebrou uma harmonia que existia,
Mas nada era, pois, em sendo plena,
Não se reconhecia, pois, sendo plena,
Nada necessitava. Se era feliz ou triste?
Não sei,
Mas em algum sentido imagino que tinha a paz.
E então o raciocínio se aquieta,
Ele que parece ser o impulso do movimento,
Se estanca como que a buscar sua contraposição,
Numa estranha quietude,
Que exausta de buscar respostas,
Aprecia a potência do silêncio da origem do Todo,
Concedendo-se o direito de calar o coração,
Pois que ele com seu sentir incomoda o cérebro,
Tal como o homem incomoda o espírito
Que vive a importunar a essência
De algo que suponho ser a alma.
Então: silêncio! Pois que preciso ouvir.